A Buja de Ti'Bordão


Ao pôr do sol, no final de mais uma labuta, todos os pastores se concentram no Monte dos Cercados, ateando fogueira, preparando púcaros, abrindo canivetes, antecipando um merecido repasto antes da sua entrega à soporífera noite estrelada, cada um ladeado pelos seus fiéis ovelheiros.

Do cimo observam entretidos um dos momentos mais divertidos da sua rotina. A chegada de Ti'Bordão, acompanhado de Capitão, Buja e seu rebanho. Ti'Bordão não é nome é alcunha, em reconhecimento da sua idade, da sua experiência, do seu saber, do seu sabor. Sendo o mais antigo dos pastores era tratado como se fora um tio de todos a quem muito ensinara, tantos quilómetros acumulados tinha em suas rijas pernas que mais parecia ser o seu cajado que nele se apoiava para aguentar a passada nas longas distâncias.

Ti'Bordão era sempre o último a chegar. Primeiro as suas ovelhas, tilintantes, dispersas, iniciavam a subida de forma caótica como que crianças procurando adiar o toque de recolher. Até que se ouvia uma voz de trovão!

- "CAPITÃO! ARREBANHA-ME ESSAS OVELHAS DE UM CABRÃO!"

(logo depois Ti'Bordão diz em surdina, de forma meiga: "Buja, quieta, juízo.")

Todos os pastores, bem como seus ovelheiros e ovelhas já acolhidas, ficavam em sentido com tamanha voz de comando. Já Capitão, um majestoso Castro Laboreiro, de olhar sagaz, cumpria com mestria, primeiro recuperava as tresmalhadas, depois agrupava-as num rebanho que mais parecia um único organismo de tão junto, de tão síncrono, tudo isto por pura imponência, sem um único latido.

Depois de impressionados todos os pastores esboçam um sorriso de deboche, antecipando o ridículo do próximo momento. Normalmente é quando tudo está encaminhado para um recolher simples e eficaz que Buja entra em acção. Buja é uma jovem cadela de fraca reputação, sem raça, de olhar tresloucado, com graves problemas no entendimento. Buja quase não pode ser considerada uma ovelheira. Adequa-se mais um estatuto de ovelha especial com alguns privilégios mais do que as ditas. Seja como fôr há algo na ordem instituída que a perturba profundamente pelo que repentinamente parte em velocidade de ponta, ziguezagueando de encontro ao coração do rebanho. As ovelhas ficam atarantadas iniciando-se a dispersão, Buja passa sobre, sob, entre elas, aparecendo e desaparecendo por entre os seus corpos felpudos, por vezes não calcula bem a distância vendo-se mesmo alguns cordeiros a voar. Capitão desespera, perde a compostura elegante, late, rosna, tentando restituir a ordem de forma intimidante. Os pastores entretidos gargalham.

Já Ti'Bordão trovão novamente

- "BUJA! AH SUA PUTA! AQUI JÁÁÁÁÁÁÁ!"

Um atento Capitão interpela a azáfama de Buja com um laber de focinho ternurento, esta volta a si, orgulhosa de seu nome estar no que parece ser uma frase de comando, apressa-se a chegar aos pés de Ti'Bordão espojando-se de barriga para cima, cauda a dar a dar, como que esperando uma recompensa merecida pelo seu melhor trabalho possível. Enquanto Ti'Bordão a afaga Capitão volta a fazer o que tem de ser feito, aproveitando a distracção de Buja, reagrupa e encaminha o rebanho ao seu cercado.

Juntando-se aos seus colegas, ainda de cara húmida das lágrimas que choraram de tanto rir, Ti'Bordão é interpelado por um deles.

- "Oh Ti'Bordão, não sei como você aguenta. Todo o santo dia a mesma coisa. Está visto que essa cadela não serve para nada. Só lhe dá despesa e trabalhos. É dar-lhe uma bordoada nos cornos e tentar com outro. Pode ser que tenha a sorte de lhe sair outro Capitão."

Ti'Bordão não levou a mal. Também ele quando mais jovem, menos vivido, se regia por outros valores. Olhando para todos aqueles seus colegas de bronze fundido na pele, agredidos pelos elementos, envolvidos pela rude solidão do campo, regidos pelos ditames do sol e da terra, disse-lhes:

- "Na imensidão deste nada que absorve toda a nossa vida a Buja mostrou-me servir para algo essencial para mim e Capitão. De forma irritantemente inexplicável, dia após dia, do primeiro ao último quilómetro, Buja faz o inesperado, consegue quebrar o nosso pranto fazendo-nos rir, coisa que desvalorizava por não se suceder antes dela se juntar a nós."

Os pastores fecharam o sorriso, não mais abordaram o tema nessa noite. Já deitados, vários deles ponderam seriamente se quando Buja tiver uma ninhada Ti'Bordão lhes teria a amabilidade de oferecer uma cria. De preferência a que aparente ser mais tonta e inútil.



Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy
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