Caminhada da Via Algarviana

Em Abril de 2017 caminhei os 300 km da Grande Rota Via Algarviana e uma vez que não encontrei muitas referências de pessoas que o tenham feito irei aqui partilhar a minha experiência pessoal para que futuros caminhantes possam retirar algumas dicas e melhor preparar a sua aventura.


Por motivos de calendário precisei de encurtar de 14 para 11 dias a duração da caminhada pelo que irei estruturar este post de acordo com o meu plano de caminhada e  não o recomendado. Tenho boa preparação física, estou habituado a fazer semanas de trekking a nível nacional ou internacional de pouco mais de 100 km em vários tipos de terreno (plano a montanha) e acabei por não planear estes dias em pormenor, até porque estava em Portugal e supostamente seria fácil lidar com imprevistos falando com a população local.

Dicas Globais

Para além dos canais oficiais cruzei-me com este blog de um trekker que falava sobre segmentos do percurso. Inicialmente pensava realizar a caminhada nas duas primeiras semanas de Maio, no entanto após mensagens trocadas com o autor do blog antecipei-a para ter início a 22/04, o que me permitiu poupar dois dias de férias apanhando os feriados de 25 de Abril e 1 de Maio. Em Maio as temperaturas serão bastante mais elevadas tornando a caminhada mais complicada. Os melhores meses para a realizar serão Março e Abril, a Primavera está no seu auge, os cursos de água terão um caudal adequado para a sua passagem e as temperaturas estão a um nível confortável. Antes existe frio, água, lama, depois existe demasiado calor.

Apanhei temperaturas máximas que variaram entre os 17º e os 25º, 5 dias de céu limpo, 4 dias de céu nublado e 2 dias de chuva frequente (num fraca noutro forte). Devido ao tipo de vegetação na serra a maioria dos percursos não tem sombra pelo que com céu limpo torra-se um pouco, tendo em conta as temperaturas amenas a chuva até sabe bem, quando forte tem dois contras, o aumento rápido dos caudais e o dificultar do percurso nos declives devido a lamas. Usei a app Tempo XL tendo como referências Alcoutim, Silves, Monchique, Sagres para prever as condições climatéricas do dia seguinte. Iniciei as caminhadas entre as 06h30m e as 07h para ter 3h a 4h de temperaturas confortáveis, ver o nascer do sol e as aves no pico da sua actividade. Desta forma os percursos mais pequenos são realizáveis até à hora de almoço, os restantes até ao final da tarde.

Por norma não utilizo bastões, mesmo com cargas a rondar os 20 Kg às costas, no entanto para este trilho, mesmo com uma mochila que não ultrapassava os 10 Kg já com bebida e comida para o dia, decidi levar dois bastões para enfrentar as constantes subidas e descidas. Foram essenciais para conseguir fazê-lo em 11 dias, nos 14 dias recomendados não seriam obrigatórios já que estaria menos cansado, a não ser talvez para o dia de subir a serra de Monchique que realmente é extenuante. Encontrei dois trekkers que faziam a rota em sentido contrário ao recomendado optando por trocar subidas mais agressivas por descidas mais agressivas.

As dores musculares serão inevitáveis sendo que nesta caminhada me surgiram em locais onde nunca tinha tido, com intensidade bastante aguda. Nomeadamente na zona articular frontal do pé, na zona da canela, provavelmente devido ao esforço em declives pouco habituais. Pelo que será uma zona a fortalecerem com treino para evitarem mazelas e diminuírem necessidade de gestão de dores.

O tipo de piso é maioritariamente terra rija ou rocha recortada, normalmente em caminho com dois metros de largura utilizada para acessos a exploração florestal e apagar de fogos. Existe muita pedra solta que cortam a estabilidade do pé, em alguns locais gravilha profunda. Só uma pequena parte será em via asfaltada ou trilhos apertados.

Quanto a transportes usei um mix de Rede Expressos e EVA. Para chegar a Alcoutim a melhor opção a que cheguei foi apanhar o expresso para Beja e daí um transporte EVA que sai às 6ªs às 13h45m. Em Beja a 200 metros da estação têm um restaurante vegetariano "Sabores do Campo" onde dá para almoçar entre viagens. A alternativa à viagem seria ir ter a Vila Real de Santo António, via autocarro ou comboio, e daí apanhar o transporte EVA que sai diariamente às 17h e picos.

Para além da primeira noite em Alcoutim não fiz qualquer reserva de alojamento, à chegada sondava o local e fazia a escolha de onde dormir. Levei também comigo um colchão e saco-cama para o caso de ser necessário pernoitar pelo caminho. Nunca aconteceu, ainda bem pois as noites são orvalhadas e sem um abrigo ficar-se-à encharcado. Existem nas aldeias alguns pontos onde seria possível pernoitar abrigado, paragens de autocarro, zonas de tanques de lavagem de roupa, etc. O alojamento local não tem grande capacidade, se houverem grupos grandes a caminhar podem realmente lotar pelo que o telefonema no dia anterior dará alguma paz de espírito aos que não lidam bem com imprevistos. A maioria dos alojamentos foi remodelado com fundos europeus e tem boas condições. O custo médio de dormida para um caminhante será de 30 €, para dois será de 20 €. Muitos oferecem pequeno-almoço. Se não os tomarem por saírem mais cedo podem pedir o farnel ao jantar para levar no dia seguinte. 

Em termos de refeições o custo médio será de 10 €, para os vegetarianos como eu é bastante limitado pois em alguns pontos julgam que peixe faz parte da dieta, além de não terem flexibilidade para fugir às omeletes e tradicionais acompanhamentos de arroz, batata frita e salada mista.

Um ponto muito importante é o de suporte de meios de pagamento. Devido às taxas cobradas vários dos restaurantes, mercearias e mesmo alojamentos não permitem pagamento multibanco. Ou seja é necessário andar com dinheiro suficiente em carteira para pagar todas as necessidades. Depois de Alcoutim só no Cachopo volta a existir multibanco!

Por vezes vão chegar às localidades a horas, ou dias, em que as mercearias estão fechadas, só existe restauração. Acabei várias vezes por fazer as compras do farnel para o dia seguinte nos restaurantes onde jantava.

Em grande parte do percurso não há qualquer suporte de dados e em alguns locais nem sequer rede de comunicação por telemóvel. Pelo que estejam preparados para longos períodos em modo offline.

Os algarvios destas localidades tratam toda a gente por tu e gostam bastante de conversar com gente nova pelo que estejam preparados para retribuir à altura. Normalmente só passam por aqui estrangeiros pelo que um português é sempre novidade e refrescante para eles. Se alguns aldeões fugirem para dentro de casa ao ver-vos não se preocupem, não é nada pessoal, têm indicação da GNR para não dar conversa a estranhos a fim de evitar burlas.

Quanto a marcações 90% do caminho está em condições excelente, depois em alguns pontos houve alteração/eliminação de marcações devido a crescimento vegetação, vandalismo ou acção humana como obras, cortes de árvores, etc. Para esses momentos de dúvida, que podem surgir quando temos menos forças para sondar o terreno em redor, será útil levar o trilho em formato GPX para acesso em apps como o GPX Viewer.

Pessoas

Como sabem os bons trekkers a caminhada é apenas parte da experiência, a outra parte importante é cruzarmo-nos e socializar com outras pessoas partilhando histórias e opiniões. Pelo que vi nos guestbooks neste percurso mais de 90% dos caminhantes serão estrangeiros, a maioria acima dos 50 anos, cruzei-me com vários tipos. Vários deles arranhavam o português e apesar de ser mais fluido ter uma conversa em inglês preferiam mesmo ter uma conversa básica em português para aperfeiçoar o seu conhecimento da nossa língua. Para minha memória futura partilho alguns dos conhecimentos travados.

Logo no primeiro dia na paragem intermédia em Mértola para apanhar autocarro de ligação a Alcoutim conheço Mark, britânico dos seus 50s, que diz fazer vida de backpacking desde 1994! Quanto tinha 26 anos fez uma viagem à Ásia onde se apercebeu que poderia viver como um rei com muito pouco dinheiro. Ao retornar ao Reino Unido passou a fazer uma vida de poupança, era micro-biologista responsável por laboratórios de controlo de qualidade de comida de grandes marcas, foi vendendo tudo o que tinha, casa, carro, ficando a viver com a mãe. Conseguiu amealhar uma boa maquia que multiplicou com investimentos imobiliários e posteriormente investimentos em bolsa até conseguir viver apenas dos rendimentos. Durante dois ou três meses investe e multiplica poupanças o restante do tempo percorrer países em backpack. Os seus pertences materiais eram o trolley e uma caixa de cartão em casa da mãe. Adorou Portugal, estava cá há dois meses percorrendo a linha interior usando transportes interurbanos sem nada planeado. O seu plano para o futuro é alistar-se como voluntário num Mercy Ship e assim ajudar e conhecer mais mundo. Procura um país ideal para poder viver como um rei quando não tiver pedalada para mais viagens.
Pelo caminho apanhei em noites intercaladas um bando de trekkers alemães, suecos, e holandeses que faziam só caminhadas curtas, de 15 km, sem carga, tendo transportes para o restante. Tratavam-me como o super-português que fazia o que segundo eles a idade já não lhes permitia.
Em Alte apanhei um casal de Holandeses nos seus 50s que percorriam Portugal há um mês, tinham vindo pelo Alentejo e entrado na Via Algarviana. Faziam uns 20 kms por dia. Conversa puxa conversa e revelaram-se grandes empresários. Detinham uma companhia de transportes internacionais com uma frota de perto de 500 camiões, uma vez por mês para 'desintoxicar' de toda a pressão inerente à gestão da empresa faziam caminhadas imersivas desconectado do seu mundo. Tinham também uma filosofia de vida holística tendo adquirido uma igreja secular que recuperaram e transformaram num centro de actividades vocacionadas para o desenvolvimento espiritual. Acharam o nosso país fenomenal e não perceberam porque tantos portugueses se queixavam da vida ao longo da sua viagem. Esclareci-os com alguns indicadores, o nosso salário médio, salário mínimo, quantos ganhavam esse salário mínimo, etc e tal e ficaram estupefactos. Depois expliquei-lhes também a origem pecaminosa do fado deixando-os divertidos. Era um casal muito boa onda, foi um bom jantar a seu lado.

A uns 8 km de chegar a Silves apanhei um Holandês de 20 e poucos anos que fazia a via Algarviana no sentido contrário. Trazia tenda consigo tendo a flexibilidade de pernoitar em qualquer ponto. Estivemos meia hora na galhofa a trocar dicas sobre os caminhos futuros. Só tinha consigo garrafas para um litro de água, dizia que as enchia pelo caminho. Estava já todo ressequido e tinha 10 km até à fonte de água mais próxima. Avisei-o de que dali para a frente a água não era propriamente potável e dei-lhe meio litro de água, aliviando meio quilo de peso, já que me faltavam duas horas de caminho e a ele provavelmente umas seis.

Em Barão de São João uma senhora mete-se comigo em português, pensei que tivesse uns 60 e picos, tinha 73, holandesa, vivia cá há 20 e tal anos. Queria rodar o português, disse-me que o caminho que eu ia fazer no dia seguinte era muito bonito e que ela própria o fazia de vez em quando porque eram só umas 4 horas de caminhada.

Por fim quando me arrastava entre o Cabo de São Vicente e Sagres sinto uma passada fortíssima atrás de mim, uma alemã robusta, de 50 e picos, que também ia para Sagres, juntou-se a mim e fomos falando o que me fez esquecer a falência física em que me encontrava. Tinha tido uma carreira ao mais alto nível como controladora financeira de um grande grupo alemão, até que há poucos anos achou que isso lhe estava a roubar o tempo de vida, devido à responsabilidade e disponibilidade exigida. Deixou esse emprego conseguindo mesmo assim uma posição confortável como auditora externa para trabalhos ocasionais. Visitou Sintra onde por acaso viu a brochura da rota no Alentejo, 260 km que partem de Santiago do Cacém com junção da rota histórica e da rota de costa Vicentina. Nunca tinha feito trekking na vida, arriscou. Adorou a experiência e diz que vai voltar para fazer a rota Algarviana pois perdeu-se tendo ido parar a Marmelete tendo gostado muito da zona apesar da maior dificuldade do percurso. Ficou maravilhada com a hospitalidade dos portugueses tendo-se entendido às mil maravilhas até com os seus anfitriões que não falavam inglês. Dei-lhe dois xicorações de despedida pela companhia e alívio que me fez aos kilómetros finais, deixei-a na paragem para Lagos e segui para a praia.


Posto estas dicas e partilha de experiências sigo agora para a caminhada em si que é o que interessará mais aos que projectam fazer esta grande rota.

Dia 1 - Alcoutim - Balurcos - Furnazinhas = 40 km

Em Alcoutim o telemóvel transita entre rede espanhola, rede portuguesa e sem rede o que baralha o relógio do telemóvel pois se estava na rede espanhola e perde a rede é essa a hora que fica como hora de referência. Tenham isso em conta quando forem acertas os despertadores e fazer o sector 1.

Os primeiros 24 km são sobretudo em curvas, mais do que em declives. Fi-los em 5 horas, chegado a Balurcos foi preciso andar mais 1 km, para trás, para ir ter ao restaurante. Uma vez aí apercebi-me que por estrada Alcoutim estava a apenas 7 km! Pelo que se por algum motivo necessitarem de encurtar dias podem perfeitamente fazer esses 7 km e depois o sector 2. O tipo de paisagem perdida no sector 1 vão tê-la nos próximos sectores.

Depois de almoçado ainda era cedo, estava com força e Balurcos não tinha nada para oferecer pelo que apesar de não previsto decidi fazer o sector 2 que é fácil. 

Nas Furnazinhas só existe uma oferta de alojamento e restauração, ao que percebi existem quartos individuais e camas tipo hostel, pediu-me 50 € para alojamento, jantar e pequeno-almoço. Como não aceitava multibanco não tinha esse dinheiro comigo... bem conversado consegui cortar o preço consideravelmente e ter o problema resolvido. O Sr. João e a dona Olívia são muito simpáticos e acompanham todo o jantar com uma boa converseta tornando a estadia muito acolhedora.

Dia 2 - Furnazinhas - Vaqueiros - Cachopo = 35 km

Mais uma vez não era este o plano inicial mas só em Cachopo existia multibanco pelo que tive de juntar estes sectores pois já não tinha dinheiro suficiente comigo para jantar nem dormir. A única dificuldade foi mesmo a longa extensão em que se transformou o dia. 

Vaqueiros é uma vila simpática, descansei quase 2 horas na sombra da paragem de autocarro junto à igreja no topo da qual existe um ninho de cegonhas. Têm também piscinas municipais pelo que para quem pernoite pode aí realizar uma descompressão.

Existe um alojamento 4 km antes de chegar a Cachopo, eu pernoitei mesmo em Cachopo em quartos disponibilizados pelo restaurante "Retiro dos Caçadores". A dona Olímpia e seu marido fizeram questão me fazer companhia ao jantar falando sobre os velhos tempos e os novos tempos daquela zona.

Dia 3 - Cachopo - Barranco do Velho = 30 km

Neste dia sente-se o impacto dos declives constantes sendo o primeiro dia mais exigente do ponto de vista físico e mental. As curvas, contra-curvas e declives tornam difícil estimar tempo e distância por observação e por vezes parece que fizemos o dobro ou o triplo do que realmente fizemos.

Logo à saída de Cachopo, quando nos deparamos com a estrada nacional, saí do trilho sem perceber como, para reentrar nele atravessei um parque de merendas que ao fundo tinha um trilho estreito que ia ter ao trilho marcado.

Quando chegarem à ribeira de Odeleite, não há que enganar pois a sua largura é de vários metros, o trilho parece desaparecer, basicamente a partir da tabuleta que indica para atravessar a ribeira há que ir para a direita, o objectivo é uma subida enorme do outro lado. São uns 2 km de declive inclinado que devo ter feito numa hora...

A pensão "Tia Bina" é também um restaurante de muito boa qualidade, havia um grupo de trekkers estrangeiros a ter orgasmos gastronómicos, a mim desenrascaram-me uma massa vegetariana que me encheu as medidas e tinham uma mousse de chocolate do outro mundo.

Dia 4 - Barranco do Velho - Salir - Alte = 30 km

Já tinha previsto unir estes dois sectores pois são de grau reduzido de dificuldade. O caminho faz-se bem e o sector 6 tem zonas muito bonitas. Considerei o sector 7 como um dos com mais presença humana, que se estranha depois de tantos kms a caminhar com sensação de isolamento, pelo que se ponderarem cortar este troço podem em Salir apanhar um transporte para Alte onde existe uma zona balnear espectacular, com piscina de água de nascente, que podem usufruir livremente. Poupam um dia e usufruem deste espaço.

Mesmo antes de Alte há um local onde fica confuso para onde é o trilho, induz mesmo em circulo, o caminho é subir a serra em frente com piso de gravilha branca. Há depois uma parte de trilho apertado que parece entrar em mato denso, é mesmo por aí, a vegetação é que é vigorosa e cobriu o trilho por não ter a intensidade de utilização que o impeça. Em algumas zonas usei o bastão quase como catana para afastar o mato.

Em Alte não dá para fugir ao hotel, ainda a 2 km da chegada a Alte, que tem também um muito bom restaurante "A Cataplana" com opções vegetarianas. Para se abastecerem podem no caminho para lá sair do trilho marcado e virar à esquerda na Igreja para passar por um mini-mercado que fica a quase 1 km do hotel pelo que se forem directos para o hotel vão ter de penar para voltar atrás...

Dia 5 - Alte - São Bartolomeu de Messines = 20 km

Depois da estafa dos dias anteriores este seria o meu dia de descanso. É uma caminhada tranquila. Depois de algumas perguntas aos locais o alojamento escolhido foi o "Casa Bartolomeu" que é mais caro do que as pensões mas com muito mais qualidade para além de ter restaurante de boa qualidade.

Existem mercearias locais mas à saída, seguindo o trilho, a 1 km da Casa Bartolomeu existe um Intermarché que podem preferir.

Dia 6 - São Bartolomeu de Messines - Silves = 30 km

Os próximos 3 dias são a verdadeira provação desta rota. Iniciando-se com o caminho para Silves. Existe uma intensificação acentuada dos declives que têm impacto directo no corpo com cansaço acumulado dos dias anteriores. Com a agravante de uma vez chegados a Silves termos de andar 2 km fora da rota, em direcção ao centro de Silves onde se encontram os alojamentos. Eu estava estafado, eram umas 19h, chovia pelo que me arrastei até ao hotel mais perto, o "Colina dos Mouros". Pelo caminho abasteci-me no Lidl. De noite recomendo-vos jantar no "Taberna Almedina" que tem bom ambiente, boa comida e também opções vegetarianas.

Provavelmente se usarem uma das apps Booking ou Airbnb existem opções de alojamento mais baratas, tentem investigar isso no dia anterior tendo sempre em conta a localização.

Atenção que quando estão a fazer os 10 km ao largo da reserva de água vai haver um ponto em que dois cães vos vão 'atacar'. São de uma das casas junto ao trilho, não existe escapatória, ou se avança ou se recua ou se espera que apareça o dono para resolver. São cães de uns 25 kg cada bastante atrevidos. Caminhei de marcha atrás usando os bastões cruzados para servir de barreira e chegaram-se a um dedo dos mesmos a ladrar/rosnar.

Dia 7 - Silves - Monchique = 30 km

Mentalmente estava preparado para uma pausa pois deitei-me com chuva intensa e as previsões eram de trovoadas para o dia seguinte. Inesperadamente ao acordar não chovia, as previsões eram de apenas duas horas de chuva, uma de manhã outra ao final da tarde, pelo que me fiz à estrada. Parti às 08h chegando ao destino apenas às 19h. Foi o dia mais longo sendo também um dos mais agradáveis, mais não seja porque existe um contraste de paisagem em relação aos dias anteriores com bastante vegetação e pequenos cursos de água. Finalmente existe sombra e protecção de chuva! O mais complicado deste dia são os últimos 10 km que são uma desgastante subida interminável.

Mesmo antes de se iniciar a subida o trilho fica confuso pelo que quando chegarem a um ponto em que estão em trilho estreito com uma marcação numa casa abandonada devem seguir para a esquerda, atravessando um riacho, entrando em mata densa que esconde a próxima marcação. Saberão que estão no caminho errado se começarem a ver várias casas abandonadas até irem ter a uma com uma ponte em arco sobre o riacho. Voltem para trás que explorei o seguir em frente e as condições não eram as melhores.

Cuidado no topo da Picota, tinha botas enlameadas, as rochas estavam húmidas, escorreguei não me aleijando por sorte, partindo um dos bastões no processo. Também aí o trilho desaparece. Só têm de sair da picota pelo lado inverso em que a subiram e o trilho acaba por surgir.

Dia 8 - Monchique - Marmelete = 15 km

Pensei que fosse uma caminhada de descompressão mas tirem essa ideia da cabeça. Há muita subida e descida para tão curta distância, ao ponto de ter de arranjar um cajado de eucalipto para substituir o bastão que tinha partido para aliviar a pressão sobre as pernas.

O Restaurante "Sol da Terra" oferece quartos porreiros sendo que ficam nas traseiras da taberna podendo ser algo barulhento, depende da bebedeira dos clientes. Se forem muito sensíveis a barulho para conseguir adormecer tentem a casa de acolhimento do povo que é gerida pela dona do restaurante que fica em frente à caixa multibanco.

Dia 9 - Monchique - Bensafrim - Barão São João = 35 km

Aqui o desafio é sobretudo a extensão, de resto a caminhada é tranquila sem grandes declives acentuados. Existe muita água que por vezes inunda o trilho, só numa das vezes tive de recorrer ao clássico atirar as botas para o outro lado e atravessar de pés descalços. O caudal dependerá das chuvas existindo potencial para muita lama e zonas mais aquáticas que terrenas.

Cuidado para não enveredarem pela ligação a Aljezur, cruzei-me com uma trekker que vinha de lá e se enganou indo parar a Marmelete. As marcações são idênticas, o crucial são os pontos com tabuletas e indicação no número de grande rota.

Chegado a Bensafrim não existia alojamento disponível, só a kms para trás, mesmo restaurantes só churrasqueira que para mim vale zero, pelo que depois de falar com uns locais segui em frente para Barão de São João onde existe mais alojamento. Era esticar o dia encolhendo o próximo.

Barão de São João é uma aldeia muito peculiar com grande influência de estrangeiros imigrados, manifestações de arte nas ruas, dois bares/restaurantes de grande nível, acabei por me sentir afortunado por ser forçado a mais uma hora de caminhada e assim poder conhecer melhor este local.

Se optarem por fazer isto então escusam de seguir a rota ao entrar em Bensafrim, fazendo um U de 1 km na vila, podem cortar logo para seguir caminho, ou então no topo, junto ao mercado municipal perguntam direcções para seguir por um caminho paralelo que é capaz de poupar 1 km.

Dia 10 - Barão São João - Vila do Bispo = 25 km

Metade do caminho atravessa uma mata nacional com árvores e sombra, a outra metade é reserva natural com vegetação rasteira, num percurso bastante fácil com a motivação extra de estarmos quase no final, a aproximar-nos do mar.

Quando chegarem à rotunda da via rápida devem assim que possível cortar para a esquerda e voltar para trás em terreno de terra apesar de isso não ser muito claro.

Em Vila do Bispo o alojamento oficial é de 50 € por noite para cima, pelo que a alternativa é o Hostel on the Hill que fica na Raposeira, 5 km antes, ou optar por usar o Booking ou Airbnb para obter em Vila do Bispo um quarto em particular por metade do preço. Depende de como queiram que seja o último dia.

Existe um Lidl em Vila do Bispo.

Aproveitem para usar as apps para reservar a noite de Sagres.

Dia 11 - Vila do Bispo - Cabo São Vicente - Sagres = 22 km

Atenção, a partir de Vila de Bispo existem duas rotas para o Cabo de São Vicente, a da via Algarviana com 17 km e a da costa Vicentina com 14 km. A nossa é a que volta para trás e passa pelo Lidl em estrada de terra paralela à estrada asfaltada.

Agora o fim está ali ao alcance de umas horas! Pois, mas com os kms acumulados nas pernas e a cabeça a pensar que já está o mais certo é acontecer algo perto da meta que obrigue a superação adicional. Foi o que me aconteceu quando parecia canja, uma dor incapacitante vinda do nada que me deu algum trabalho a perceber como atenuar. O caminho é praticamente plano, à torreira do sol, talvez porque o corpo foi educado nos últimos dias para lidar com declives de subida e/ou descida, de repente, quando deveria ser mais fácil, parece que não sabe lidar tão bem com longas distâncias em terreno plano que exigem outro tipo de competências musculares e articulares. 

Uma vez dominada a dor, após um último esforço, chegamos ao Cabo de São Vicente, ponto de encontro de vários trekkers que vêm também da rota que parte de Santiago do Cacém com 260 km. É encher a vista de mar, descansar, e decidir o que fazer agora para chegar a Sagres.

Existem três hipóteses. Apanhar um autocarro diário que parte às 11h55m e 15h05m, conseguir uma boleia ou andar 6 km até ao centro. Tinha chegado ao meio-dia não me apetecendo esperar pelo autocarro, os carros são na sua maioria alugados por turista sem espaço para trekkers e suas tralhas pelo que acabei por andar em companhia de outra trekker. Chegando a Sagres é ir directos para a praia, mergulhar directamente no mar, desfrutar do local e do feito realizado!

Caso decidam palmilhar esta via espero que de alguma maneira vos tenha ajudado na preparação e que vos corra tudo bem. Deixem depois aqui feedback sobre a vossa experiência para facilitar a vida a futuros caminhantes. Boa caminhada!



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Olá... estou-te a ver! Podes falar mal ou falar bem mas com juizinho sff! Beijinho e/ou Abraço

Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy
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