Desvulcanização

Abrupto, de sangue demasiado quente, fluindo em imparável circulação até à súbita erupção, qual magma verbalizado, expelido por todos os poros, acumulando-se em camadas sobrecutâneas de alma carbonizada, esterilizantes de suas capacidades oral e sensorial.

Transformado em vulcão inerte, inflama todo e qualquer toque, abafando com trovões pulsantes todos os dizeres que lhe eram dirigidos. Deixara de respirar passando a imolar. Nem a fotossíntese de toda uma floresta tropical seria suficiente para anular a toxicidade da sua fumigação. Apesar de vivo deixara de ser sujeito transformando-se num coiso, um coiso ao descaso.

Assim existia na mais completa analgia física, emocional e espiritual, sem sentir sequer o contínuo e paciente gotejar que nele se infiltrava. Gota a gota, sendo as primeiras milhões evaporadas instantaneamente, se formaram veios trespassantes, abrindo canais de lágrimas vitais, dissolventes das toneladas de suas matérias e imatérias mortas que o mantinham prisioneiro inerte e fossilizado.

Sem agitação esta delicada e zeladora liquidez engoliu-o numa lenta curtição, diluindo-lhe toda a amarguez e insalubridade, num processo que requereu uma incerta quota parte da eternidade, culminando num violente agitar de águas. Primeiro um regurgitar! Golfadas dos resquícios de carvão e lodo que bloqueavam o seu ser. Depois um despertar com um esbracejar e um violento gritar

AAAAAAAARRRRRRRRRRGGGGHHHHHHHH!

Ecoou a uma velocidade 4x superior ao normal gerando em seu redor um turbilhão de bolhas de oxigénio que se elevaram para a superfície. Ainda inebriado pela recém-adquirida senciência segue-as como que por instinto. E é durante essa ascensão emergente que se questiona como terá transitado de homem condenado em vulcão a homem recuperado em Aquário.

Julieta Domingos Photography


0 comentários:

Enviar um comentário

Olá... estou-te a ver! Podes falar mal ou falar bem mas com juizinho sff! Beijinho e/ou Abraço

Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy
Ocorreu um erro neste dispositivo

Seguidores