Cafica, a Poça que não quis ser Nuvem

Cafica era uma poça como todas as outras. Tinha acabado de se formar com as primeiras chuvas de Outono. A terra sobre a qual estava assente era ainda dura, reflexo de um Verão quente e seco. Com o passar dos dias e a chegada do Inverno Cafica foi sendo alimentada pelas chuvas e alargou-se bastante em tamanho e profunidade. O solo já se tinha convertido numa lama espessa que a impedia de se infiltrar e juntar-se a um dos muitos cursos de água subterrâneos que cruzam as terras muitos metros abaixo do solo.

Ao seu redor nasceram muitas outras poças e todas em conjunto olhavam o céu sonhando com o dia em que ascenderiam a nuvem. Cada uma sonhava com a forma que iria assumir para desfilar nas alturas, cativando a atenção daqueles que ainda olham para cima. Umas queriam ter a forma de um coração, outras queriam ser uma flor ou animal e as mais arrojadas desejavam conseguir ser a cabeça de um monstro mitológico.

Só Cafica não sabia o que queria ser. Não era grave. Tinha até ao Verão para se decidir.

Quando a Primavera chegou as poças começaram a ser invadidas por pequenos musgos, larvas de mosquitos, pequenos insetos que caminham sobre as águas e girinos de rãs e tritões. Muitas aves percorriam também a sua orla para saciarem a sede, algumas chegavam a banhar-se. As grandes poças outrora inertes e inóspitas transformaram-se em pequenos poços repletos de vida.

Não muito tempo depois o Verão aproximou-se e o seu Sol tórrido lançou o histerismo entre as poças. Era chegado o tão esperado momento da ascensão a nuvens. Finalmente iam assumir o seu lugar nas alturas com as formas com que sempre sonharam. Estranhamente Cafica não partilhava do entusiasmo das suas congéneres. Estava preocupada. Não consigo mas com aquilo que aconteceria aos seus ocupantes e visitantes quando partisse.

Os dias eram cada vez mais longos e quentes e as poças entram na fase da ascensão. Comprimem-se para diminuir tamanho por forma a facilitar a sua evaporação, através da qual levitam graciosamente para o céu. Apenas Cafica lutava contra o inevitável e refugiava-se nas sombras dos rochedos e árvores ao seu redor. Ainda tinha girinos que não eram rãs e banhava muitos tritões e salamandras que nela encontraram um lar.

Num dia de muito calor deu-se finalmente a ascensão de todas as poças. Gaseificadas evaporaram-se para o céu assumindo as formas que tanto planearam ao longo dos últimos meses. Ursos, Golfinhos, Corações, Minotauros, Hidras, o céu era um festival de fantasia com novas nuvens em rejubilação enquanto eram levadas pelos ventos.

Para trás, no chão, deixaram centenas dos seus habitantes a perecer em sofrimento, dezenas deles, com capacidade de deslocação, migraram para a única poça que tinha feito finca-pé, resistido à onda de calor e ao ciclo natural da sua existência. Cafica recusara-se a partir pois não considerava que aquela carnificina fosse justificada pelo concretizar de um sonho que até não era seu. E sobre o solo viu as novas nuvens a desaparecerem no horizonte.

Cafica era agora a única água das redondezas de quem dependiam milhares de seres vivos.

As nuvens recentes seguiram a sua viagem e viram plantas e animais incriveis noutros pontos do planeta, nunca suspeitaram que pudesse existir tanta vida e tão diferente daquela que conheciam. Ao passarem por uma zona árida desprovida de vida, certamente devido às penúrias do Verão, repararam num pequeno oásis que florescia ao redor de uma pequena poça de água abrigada na sombra de um rochedo. Não queriam acreditar quando reconheceram Cafica. Tinham passado 15 dias e sem dar por isso tinham regressado ao ponto de partida depois de uma volta ao mundo.

Perceberam que Cafica nunca ascendeu! Assim o escolheu. E o deserto à sua volta mais não era que o legado que deixaram quando se limitaram a cumprir o seu ciclo de vida em busca do seu sonho. O sonho de assumir formas de fantasia que devido à força dos ventos, e pressões da altitude, foram desfeitas em dois ou três dias. Na verdade eram agora um manto uniforme de nuvens que formava um céu encoberto. O que não era grave tendo em conta que cedo se aperceberam que não há assim tanta gente a olhar as nuvens apreciando-as como obras de arte efémeras.

Ao verem Cafica tão pequena e encolhida, a poucos dias de ver a sua vontade violada e sofrer uma ascensão forçada, repararam no seu próprio reflexo. Uma pálida imagem de tudo aquilo que tanto ambicionaram, e à custa de muitas vidas que delas dependiam enquanto poças. Viram do ar aquilo que poderiam ter proporcionado em terra, bastaria para isso terem dado o devido valor a tudo o que tinham tal como fez Cafica. Não fosse Cafica e nada restaria. Ironia que quem não sonhava ser algo se tenha transformado na base de tudo naquele lugar. Por raiva para consigo mesmas, vergonha e tristeza todas choraram em uníssono.

Foi uma tarde e uma noite de chuva intensa como jamais tinha acontecido em qualquer Verão no passado. E no dia seguinte já não se percebia onde começava e acabava Cafica. Agora existe um enorme lago batizado de Caficamos, tão grande que é impossível de ser evaporado num Verão inteiro.



Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy
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