Pensei-o? Disse-o? Fi-lo? Foda-se

Frio. Está, faz ou sinto? Não sei. Apenas frio. Já não devia com tanto sol. Mas agora não há. É noite. Enquanto penso no que digo (ou digo o que penso?)  interrompes-me de surdina por um acaso. Ataco-te imediatamente.

- "O que é?"
- "!? Não é nada. Deve ser confusão."
- "Confusão? Esse olhar? Pois, sim, claro..."
- "Olhava na tua direcção mas não para ti. Foi um acaso."
- "Que novidade... Eu não disse que me tinhas interrompido por um acaso?"
- "!? Não... apenas disseste 'O que é?'. Bruto e mal-educado ainda por cima."

Nisso ela tem razão. Já misturo o que digo com o que penso. Muitas vezes já não sei se falei ou pensei. Mas agora sei que penso o que faz aqui esta mulher a dar trela a um desligado.

- "Não faço nada. Apenas caminho, olho, escuto e vou pensando para me entreter. E como não trouxe o cão também não trouxe a trela."

Merda! Falei!? Arrrgh... oh não... o FDP do frio encravou-me uma das vértebras dois dedos abaixo da cervical, logo no início da torácica, ali onde as clavículas se unem à espinha dorsal. PDI! Não posso mover-me um milímetro sem passar um ar frágil. Aguenta! Não lamenta!

- "E tu que fazes por aqui para além de seres antipático com quem se aproxima demasiado do teu espaço privado?"
- "Eu? Nada. Só frio. Frio hoje não é?"
. "Frio? Estás doente? Com este Sol até a noite é amena. E porque estás tão firme e hirto? Não te mexes um mílimetro! Estás nervoso? Incomodo-te?"
- "Não! Eu é que enervo! Eu é que incomodo! É um jeito que eu tenho, ou um jeito que eu dei. Foda-se! É apenas um jeito!"

Ups. Disse foda-se ou só o pensei? Estou cada vez pior. Mas ela ri-se, deve ser parva. Mas o que faz agora? Dirige-se a mim de braços abertos!? Foge! Mexe-te! FRIO! DÔR NO JEITO! inerte. indefeso. Apanhou-me. Abraça-me como se tivesse razão para isso. Para quê? Porquê? Os abraços dão-se? Recebem-se? Ambos? Há quanto tempo me abraça? Há quanto tempo penso nisso?
Aos poucos quente. O jeito desajeita-se. Quando começo a pensar em evitar abraça-la de volta já o tinha feito por reflexo muscular para confirmar estar desajeitado. Que miséria. Até já o que faço precede o que penso. Afinal para que penso ainda se não me vale de nada mais do que manifestar arrependimento? Agora ficámos entrelaçados.
...
Estou a adorar este abraço.
...
Espero que não se vá embora nunca... FODA-SE! O QUE É ISTO? Que lamechas. É só ficar quente que me derreto todo!? Espero que não o tenha dito.

- "Mas disseste-o!"
- "Disse-o? Ainda bem."

Aniblabla

"Aqui estou no cimo deste penhasco debruçado sobre a sua beira. Sinto as pernas paralisadas, ancoradas no solo mas o meu tronco parece que puxado pela gravidade, cada vez mais inclinado sobre o vazio, perto do ângulo em que não me conseguirei suster. Pior que isso é olhar para o fundo, a centenas de metros, sentir aquele hipnótico impulso de saltar. Devo resistir? Devo deixar-me ir? Será o demo? Estarei doido?"

- "Que grande secas! Salta logo, pá! A ver se ganho sossego!"

"Agora oiço vozes!? Olho em redor e não vejo ninguém? Perdi o juízo! Uma voz tão grave e pujante só pode ser um demónio a atormentar-me!"

- "Um demónio? Já me chamaram muita coisa mas essa foi a primeira vez! Só não me vês se não quiseres ó tónhó. Estou mesmo aqui à tua direita à altura da tua cintura."

- "Mas... mas... tu és uma Joaninha!?"

- "Joaninha o %*%$#%#! Sou um Joaninho, olha para isto!" - diz ao mesmo tempo que estende as suas asas e abre as suas patas expondo o seu baixo ventre - "Digno de um Louva-a-Deus, não!?"

"Só posso estar a sonhar. Ouço insectos falar que ainda por cima me ouvem os pensamentos."

- "Claro que te ouço os pensamentos! O que achas que é pensar? Quando ouves essa vozinha interna pensas que é magia? São tão espertos, tão donos do planeta e ainda estão tão longe de se compreender..."

- "Mas como é isto possível? Afinal, estou no Mundo de Farnia ou nas crónicas de Narnia!?"

- "Rapaz, nós falamos connosco mesmo vibrando as cordas vocais de forma tão inconsciente que provocamos a vibração dos nossos tímpanos sem que seja necessário mover as nossas bocas. Tal como respiras movendo os pulmões sem lhes dar ordem expressa para isso, pensas desta forma sem dar por isso. Nós, os outros animais, somos mais sensíveis a determinadas frequências e em pensamentos muito focados conseguimos sintonizá-los sem dificuldade. E os teus são muito maus mas muito focados a modos que me estás a incomodar ao ponto de ter de te mandar calar."

- "E desde quando falam os animais?"

- "Desde sempre..."

- "Desde sempre? E porque não está isso em livros de ciência? Apenas é imaginado em contos de fantasia."

- "Porque há muito tempo atrás deixaram de nos querer ouvir e nós com o passar do tempo deixámos de vos querer falar. Bate boca entre Homens e outros Animais hoje em dia só quando devoram alguns de nós à boca cheia. Apenas um pequeno grupo de vocês ainda tem a capacidade de nos ouvir se decidirmos expor-nos. Para meu azar tu és um deles pelos vistos."

- "Quer dizer que todos os animais falam?"

- "Sim, todos, inclusive vocês. Uns melhor que os outros."

- "Mas aqui onde estamos ouço muitos outros sons de insectos e pássaros. E não ouço nada mais de inteligível para além das tuas palavras. Custa-me a crer que seja um segredo tão bem guardado ao longo de milhares de anos. Alguém que vos ouvisse iria certamente dar nas vistas e espalhar esse facto."

- "Há quem nos sangre e ao ouvir os nossos urros replique que não sentimos dor. Há quem nos veja paralisar de medo ou definhar de tristeza pela liberdade perdida e diga que não sentimos. Há quem nos mate e ao ver a faísca da vida a apagar-se dos nossos olhos diga que não temos alma. Para vocês a partir de um certo ponto da história passámos a ser apenas bichos.E quem afirme que fala com os 'bichos' só pode ser maluquinho. E ninguém quer passar por ser maluquinho.
Tu não percebes o que dizem os animais circundantes porque eles te estão a ver. E neste momento usam os seus dialectos próprios. Cada espécie tem uma língua própria, excepto vocês que têm umas dezenas ou centenas. Mas se confiarem em ti os que aqui estão nas redondezas passarão a falar na língua universal que nos liga a todos. É o que usamos quando não existem humanos à vista."

- "Confiar em mim? E que é preciso para tal?"

- "Apenas tens de encher os pulmões e gritar ANIBLABLA! É essa a palavra mágica que te dará acesso a um mundo que nem sonhavas existir..."

-"Só isso? Pois bem aqui vai!  ANIBLABLAAAAAAA!"

O grito ecoa pelos prados descendo a encosta até ao vale. De repente silêncio onde antes reinava o chinfrim.

- "Então? De repente calou-se tudo?"

- "Calma, não é todos os dias que se deparam com um humano a quem se podem revelar na plenitude. Deixa-os processar a surpresa. Até eu fiquei surpreso por a gritares sem querer saber mais sobre o seu efeito!"

Os segundos passam gerando algum desconforto e suspense. Afinal que teria ele feito ao gritar aquela palavra mágica? Nisto ouve-se um coro a cantar em harmonia perfeita.

- "Dorme dorme meu menino
Não deites as mãos de fora
Fecha os teus olhos tão lindos
Que o papão já foi embora
..."

- "Mas que vozes majestosas! Em perfeita harmonia. Uma canção de embalar no verdadeiro sentido do termo! Serão rouxinóis certamente?"

- "Rouxinóis? HAHAHAHA Esses ordinários só sabem contar anedotas porcas. Não, tiveste azar. São os sacanas dos mosquitos e melgas. Andam sempre em bando. Cuidado que são como as sereias. Encantam-te com as suas canções e depois sugam-te até ao tutano!"

- "Isto são mosquitos e melgas? Caramba! Fazem sombra à Susan Boyle!"

- "Quem é essa!? Olha, estão todos a ganhar confiança e a perder o pudor de se revelarem. Agora vais sentir o que é verdadeiramente o nosso mundo."

A pouco e pouco cada um dos animais circundantes recomeça a labuta do seu dia-a-dia inundando o espaço com milhares de vozes cruzadas.

- "Dão-se abraços gratuitos!" - gritam as aranhas do centro da sua teia
- "Sigam-me é por aqui! Já sinto o sabor do açúcar!" - dizem milhares de formigas batedoras
- "1+1=2, 2x7=14, 10:10=1, Pi=3.14159265358979323846,..." - balbuciam os bichos de contas
- "Não me apanhas! Não me apanhas! Hop Hop Hop!" - zombam as lebres irrequietas
- "Ai amor, sinto-me a perder a cabeça..." - diz a Louva-a-Deus para o macho que a corteja
- "Estou cheia de frio nos pés!" - diz uma centopeia passante
- "weeeeeeee weeeeeee uhuuuuuuuuuuuuuuuu" - bradam os pássaros das suas acrobacias nos céus

- "Incrível! De repente sinto que aterrei num outro planeta. Mas de certo modo isto é extenuante. Tantas vozes, milhares, mais avassalador que um estádio inteiro a puxar pela mesma equipa."

- "Isso é falta de hábito. Não é pior do que uma visita à cidade onde somos esmagados pela horda de pensamentos dos milhares de pessoas como tu que enchem as ruas juntamente com os barulhos de toda a maquinaria intoxicante que usam para se deslocarem. Dá-te por feliz por vocês pensarem tanto e falarem tão pouco. Aí sim irias ver o que é uma situação insuportável."

- "Passa-nos assim tanta coisa má pela cabeça? É provável que sim. E devemos sabê-lo bem para guardá-lo para nós. Mas estou é muito curioso em experimentar isto com o meu cão e gato. Que será que têm para me dizer?"

- "Cães e gatos? Esses são todos iguais. Estupidificaram de tanto lidarem com vocês. Os cães são crianças lamechas permanentemente carentes de afecto e atenção. A sua comunicação assenta em pedidos, suplícios e falas engraxadoras que vos derrete o coração.Os gatos são imperadores que apenas te sabem dar ordens e fazer exigências, a que vocês correspondem solícitos parecendo servos a servir um amo. Tiveras-me dado tempo e ter-te-ia perguntado se tinhas o que chamam de 'mascotes' porque se soubesse que as tinhas não te teria revelado este segredo. Lamento pelo inferno em que se vai tornar a tua vida com elas.
E recomendo-te vivamente a ficares afastado de zonas de criação de animais para abate. É que a carne que te chega ao prato é muda mas antes de ficar sem voz agoniza em lamentos e tormentos que te podem levar à loucura, ou pior, a uma qualquer forma de vegetarianismo por motivos incompreendidos pelos teus pares. Já aconteceu no passado."

- "Poderá tornar-se assim tão mau este dom? Se assim fôr quando chegar ao ponto de rotura acabo com isto. Como faço para deixar de vos ouvir?"

- "Deixar de nos ouvir? ha ha ha Essa foi boa. Não é daquelas coisas que possas desligar. Depois de entrares neste mundo ficas com a aura transformada. Agora todos sabemos que nos percebes. Devias ter esperado que te contasse mais pormenores sobre aquilo em que te ias meter. Já não há nada a fazer.  A não ser que voltes ao ponto de partida e sigas o impulso de saltar. Se precisares dou-te um empurrãozinho ó mariquinhas!"



Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy
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