O duro Muro

Talvez o mais difícil de suportar neste imenso páteo de prisão seja esta sensação de isolamento do exterior e solitude passada pelo enorme Muro de betão cru. Cinzento, opaco, esmagador.

Todos se queixam do Muro. Homens, mulheres e crianças sonham destruí-lo, passar-lhe por cima, passar-lhe por baixo ou simplesmente atravessá-lo num passo de mágica real melhor que qualquer ilusão bem planeada. Noites e noites em que nós, reclusos, congeminamos formas de ludibriar os guardas e pôr termo ao reinado desse duro Muro monstro. Há quem chegue a socá-lo em desespero, espancam-no sem dó nem piedade, transformando as próprias mãos numa amálgama de carne e sangue cujos resquícios alimentam as suas fendas.

Estou aqui de breve passagem mas não mais consigo olhar para este Muro nu revoltante. Decido agir, pela calada, numa acção concertada. Falo com as pessoas certas, aquelas que conseguem fazer entrar qualquer coisa pelo preço justo. Não muitos dias depois entregam-me o material e à noite, enquanto todos dormem, começo a pintá-lo. Visto partes do Muro com pinturas de paisagens e pessoas frescas, frutas e pessoas maduras nas mais diferentes situações pitorescas.

Nos dias e semanas que se seguem não mais se fala do Muro como algo a abater. Contemplam-no e discutem-no como se se tivesse transformado em galeria de arte. Cada um dos meus desenhos alivia, acalma o espírito e facilita a aceitação daquele confinamento.

Aconteceu uma noite ser interceptado por um dos anciões, tanto de idade como de tempo de clausura. Interpela-me curioso.

- "Então és tu que pintas o Muro? És tu quem fazes com que fique mais bonito?"
- "Sim, obrigado."
- "Nós não queremos que ele seja bonito! Odiamos este Muro! Pára com isso!"

Percebi então que pintei ilusões assassinas dos sonhos e esperanças de todos os outros. A revolta e insurreição eram alimentadas pelo ódio e desconforto causado pelo duro Muro em cru. Foi nesse momento que passei a odiar as minhas pinturas que transformaram o Muro numa gigante tela hipnótica e sedante. Isso era notório em cada semblante.

Nada mais me restava do que usar o diluente para apagar o mal que fizera. Que pior castigo para um criador que apagar as obras do seu labor. Repus o Muro original e fiz uma última pintura para relembrar a todos que, mesmo sendo aquele o nosso lugar, devemos lutar pelos direitos de viajar ou simplesmente olhar para um horizonte longínquo entretanto já esquecido.

A assinatura fi-la a vermelho com um murro bem em cheio no meio desse maldito duro Muro em betão cru!

Falta um arame para a morte


Olho para cima e vejo-a ali, como o último grão de areia de uma ampulheta, que teimosamente desafia a gravidade antes de fechar mais um ciclo e obrigar à manobra de inversão que marca o seu enterro sob o peso de todos os outros.

Aquela faca está ali, pendurada, à espera de me marcar como um ponto de exclamação final. Tão depressa corta o vento, como se torna baloiçante, ou rodopiante tal qual uma mortal rosa dos ventos.

Deixaram-na ali para me atormentar. Para saber que tenho os minutos contados aqui nesta cadeira onde estou acorrentado e amordaçado. Completamente de mãos atadas.

Olho para o arame que a prende, ora reluz ora se torna invísivel. Sonho que seja de titânio, ou aço bem temperado, mas julgo que seja de simples níquel. Cada vez mais fino, frágil, cada vez mais perto de um romper fácil.

Fiz o mínimo exigido. Enchi o peito de ar e enrijei os músculos ao seu máximo volume. As correntes afrouxaram um pouco ao expulsar todo o ar mas o problema são as mãos. Estes nós são fora do normal. Contorço os pulsos, dou esticões precisos, mas nada. Parece que cada vez me apertam mais. A minha carrasca desta vez esmerou-se.

-Já chega!? Posso parar com isto?

Grita-me ela de repente, surgida do nada, num misto de provocação e preocupação.

Abano com cabeça dizendo que não. Um homem deve manter a sua dignidade apesar de tudo. Se a faca me matar ela também fica sem o que mais quer no mundo. Há aqui um duplo jogo de bluff. Ambos fingimos não nos preocupar com o que vai acontecer quando aquele arame se romper mas tememos esse momento inevitável.

Há algo no meu olhar que a leva a retirar-me a mordaça.

-Diz! Fala as palavras que te salvarão!

-Não, não tenho medo!

Viro a cara na direcção oposta enquanto continuo a debater-me com os malditos nós. É então que se ouve um SNAP seguido de um ssssssssilvo mortal. A sua trajectória é precisa e o alvo é a minha cabeça. Gritamos os dois e deliro ouvindo muitos outros gritos na escuridão. Olho para cima e fixo-a. Reajo por instinto, abro a boca, e acaba-se tudo num fechar de olhos. Por segundos o tempo pára,  então a faca é desembainhada de minha boca, as luzes acendem-se, salto da cadeira liberto, ileso, e a sala enche-se de aplausos da plateia.


Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy
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