Um mundo livro

O ruído envolvente de conversas desconexas formam uma surpreendente calma caótica onde tanto se diz e nada se ouve. Não me concentro em nenhuma conversa em particular mas ouço perfeitamente alguns trechos como:
"... tu queres-me ouvir antes de dares opinião? Ainda nem um gajo se explicou já estás a opinar, dasse! ...",
"... e ela ia lá tomar a pílula de emergência e já tinha feito abortos mas essa parte da reportagem passei para outros que eu não sou capaz ...",
"... e o gajo mete nojo só está ali para fazer merda e entalar os colegas ...",
"... Do you want some Sangria? Very good very good ..." e
"... isso das malas guardarem lugar não pode ser!".

Os ouvidos são daqueles orgãos independentes que não conseguimos desligar nem direccionar para um ponto exacto. Acabamos por ouvir o que queremos, o que não queremos e ponto final. Para compensar usava os olhos num varre varre aleatório tanto para os lados como para cima. Sim, para cima. Pouca gente olha para cima hoje em dia. Estrelas já não há muitas e as nuvens há muito que deixaram de ser transformadas pela imaginação. Pois eu olhei para cima e vi uma libélula enorme! Ali no meio da cidade. Sobrevoou-nos com dois círculos e zarpou. Nesse momento reforcei os ouvidos mas nada, nem um "OLHA UMA LIBÉLULA!".

Tinha de ali estar mais de uma hora à espera, pelo que decidi fitar algumas figuras que conversavam, apenas pela piada de tentar ler o seu estado de espírito a partir da sua expressão facial e corporal. Por vezes fitavam-me de volta. Nessa altura eu montava um ar de estar incomodado com a sua conversa, como se a estivesse a ouvir, até ao ponto em que se sentiam desconfortáveis, como que reconhecendo que o teor da conversa não era o mais apropriado para um espaço público. Eles lá saberiam.

Foi então, num desses momentos de paragem do olhar, que te vejo a levar o indicador à boca e a estenderes a língua delicadamente para o passar ao de leve. Encostas o indicador ao livro e avanças uma página. Como é possível? Estás aí impávida e serena perante a algazarra do casal desavindo, das jornalistas fanfarronas, das tricas laborais, dos turistas estrangeiros, e dos saltimbancos que procuram lugar na plateia esgotada.

Como não te deixas afogar por este mar de vozes e pelas suas ondas sonoras? Decido ler-te enquanto lês o teu livro. Ver como as linhas do teu rosto espelham o que se passa nas linhas do teu livro. Neste momento vives para ele. Expiras ao varrer os parágrafos de lés a lés e inspiras em cada virar de página. Eu não estou longe de ti. Talvez a dois braços de distância. Por vezes chamo-te com o olhar para não incomodar mas nada. Folheias o livro como se estivesses numa outra dimensão e não neste mundo cão. Tento ver o título na lombada mas tens-ma bem protegida com a tua mão.

De repente sou puxado para uma velhinha que bebe uma garrafa de coca-cola pelo gargalo. Entre goles enrola e desenrola a língua como um relógio de cuco, no fim chupa o ar entre os dentes emitindo silvos higiénicos com um ar refastelado enquanto o refrigerante lhe chega à bocha.

Volto a ti e ainda lês, com a agravante que desta vez róis as unhas. Fico curioso pelo porquê mas não me atrevo a interromper-te o prazer. Aguardo pacientemente olhando para as capa e contra-capa como se fossem dois pratos de uma balança. Vou torcendo para que a capa roube todas as gramas à contra-capa. Nessa altura chamar-te-ei novamente, talvez com mais vigor e quem sabe um gesto de mãos.

Um estrondo seguido de um cheiro intenso que se suplanta ao das bifanas dos que sentam algumas cadeiras ao lado. O estrangeiros deixam tombar uma garrafa de tinto carrascão cujo odor monipoliza todas as narinas. Algum desconforto local mas tu não, os teus olhos não saiem do teu livro e limitas-te a rodear a orelha ajeitando os cabelos como se nada se tivesse passado.

Nisto as luzes somem-se, o gongo soa, e o silêncio absorve todas as vozes e o caos audível. Estás a 4 ou 5 páginas do fim do teu livro e és forçada a parar. Lanças um suspiro e um esgar de desagrado enquanto o fechas e guardas na mala. Levantas-te e sais deixando-me só na plateia.


Um Coelho, uma Lebre e o Falcão esvoaçante

- "Ei, Lebre! Aguenta os cavalos! Onde vais com essa intensidade zig-zagueante?"
- "Olha-me este... que tens tu com isso ó Coelho?"
- "Ter, ter não tenho nada. Mas essa tua dessintonia borra-me a paisagem. Estás em todo o lado ao mesmo tempo mas não vais para lugar nenhum!"
- "E qual o problema? O dia ainda não acabou, tenho muito para onde ir parar. Tu por outro lado, Coelho, que fazes aí especado tal e qual um animal ruminante? Só te falta a linha do comboio ou um palácio..."
- "Antes de mais sou mesmo ruminante sua Lebre ignorante. Simplesmente aprecio a vista e o tempo nestas paragens. Não preciso de partir nem de ter onde chegar. Tenho tudo aqui. Comida, abrigo e até mesmo atenção e carinho."
- "Assim de bandeja? Sortudo, felpudo orelhudo... Já eu corro diariamente por comida, tenho mais tocas do que as que guardo na memória, a nenhuma posso chamar lar, e atenção atraio sobretudo a dos caçadores. Mas isto não é uma quinta? Não estarás na boa vida para a engorda e depois panela contigo?"
- "Não, não. Sou coelho mascote. Para a panela há ali aqueles em cativeiro nas traseiras. Tenho melhor sorte felizmente."
- "Eles prisioneiros com destino marcado e tu aqui, à solta, livre, vida de Lorde. Que acham eles disso?"
- "Na verdade estes não sei. Já ando aqui há uns anos mas aqueles só costumam estar ali uns meses. Ainda meti conversa com os primeiros mas só pedem ajuda ou têm raiva ou inveja. Sou só um Coelho. Têm que compreender que tenho as minhas limitações. Assim deixei de os ver e faço por os esquecer."
- "Estou a ver... mascote há só uma. Bem orelhudo, foi um prazer, mas não sei sequer por e para onde vou. Tenho de me fazer ao mato na esperança que uma das minhas tocas esquecidas me encontre."
-"Ok, Lebre. Segue lá um pouco mais certa para o teu destino incerto. Não me monopolizes a vista deixando um rasto de figuras tuas."
E lá foi a Lebre em sprint pensando se num qualquer futuro terá a capacidade de apreciar o conforto de um ponto de partida e de um ponto de chegada conhecidos.
E lá ficou o Coelho parado magicando como seria verdadeiramente libertador seguir um dia por um caminho não planeado para chegar onde calhar.
Sobre ambos um Falcão paira observando-os como ilustrações vivas de um cardápio. O em sprint ou o parado são a mesma coisa, não fosse ele dotado de visão de alta precisão e capaz de um voo picado silencioso a mais de 300 kmh. Apenas estava indeciso sobre qual iria sentir o aperto das suas garras.
Já os coelhos das traseiras ficam como estão. Alheios e esquecidos nem sei porque foram para aqui chamados.

Red-Tailed Hawk

Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy
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